living in theory
Dezembro 11, 2006
Strawberry Fields Forever
Num mundo de plástico, escrevo-te com duros adjetivos e substantivos concretos. Sonho com paredes invisíveis, que me deixam olhar nos seus olhos e desanuviar a sua sombra. Um lugar em que você não pode se esconder, e onde eu não posso me proteger. Uma casa cheia. Com vívidos barulhos ressoando até o teto, livre de rachaduras.
Perco dias procurando estrelas em um negrume muito grande. Até que amanhece e percebo que me perdi por muitas horas. O mundo se apagou. E eu fiquei.
Sonho que ainda moramos na mesma rua e dividimos janelas. Mas você nunca soube ler versos e entender poemas. E eu sempre fui egoísta demais para traduzi-los. Mutilamos os nossos frágeis elos e nos calamos. Esquecemos as promessas que nunca fizemos e fugimos. Sinto pena de ti, que possui olhos e pernas fracas. Que tem o gênio forte e ensurdeceu com os próprios gritos.
As cortinas se abrem, as luzes se acendem, as palmas se aceleram. Procuro-te do palco, mas a platéia está vazia. Fim. E é como se nunca tivéssemos vivido.
Novembro 26, 2006
I want you to want me
Restam poucas palavras e um nó estranho na garganta.
Tanto pra dizer e esse nó...
Foi tudo muito rápido, muito intenso. Feito uma chuva de confetes coloridos. O cinza da Paulista, os azuis e verdes límpidos dos olhares amigos, os brancos dos sorrisos. E um vermelho-vida, pulsando.
Foi exato, necessário. Porque sem combinar, dá super certo. Mas talvez nossas vidas tenham sido projetadas para que nos encontrássemos. Talvez estivesse escrito.
Talvez...
Foi um despertar. E só então soube que era dia e fazia sol.
Foi uma viagem linda...
Mas isso não é uma despedida.
Novembro 5, 2006
" There's an underestimated and impatient little girl
Raising her hand"
Os meus olhos embaçam à frente. Embaralho palavras feitas em torrente, letras que se consomem e viram um só nome. Liquefaço-me. Sinto medo de pôr-do-sol, de rua, de pássaros que acordam em uníssono do lado de fora. Do horário de verão que me rouba uma hora. Tomo um suco de maracujá para acalmar o meu compasso em taquicardia, em desacordo. Acordo e adormeço no mesmo salto. O ônibus passa levando meu reflexo pelos vidros. Outras janelas também se despedem levando-me com elas, uma correnteza delas. Evito espelhos com medo de não me encontrar. Escondo-me em substantivos concretos, falsos adjetivos e estranhos verbos. Não sei o que digo, apenas repito. Um dia, dois, dez. Passam-se meses e já é quase dezembro de novo. Passam-se meses e ainda estou. Wake up!
Outubro 22, 2006
Little Miss Sunshine
Chave na porta. Silêncio no corredor. A TV ainda está ligada, ocupando a sala de estar que você deixou vazia. É tarde. E você dorme tão cedo pra se lembrar dos tempos de infância. O "boa noite" emudece no escuro, fica para as paredes, para os retratos empoeirados. Os nossos velhos retratos. Eu fico por aqui, esquentando o café que você deixou pra mim. O nosso diálogo se mantém pelos vestígios que deixamos no apartamento. O cd que eu deixei no som, com a esperança de te ouvir cantar Vinícius; a saia nova que você deixou estendida sobre a cama; o perfume que você não devolveu. Sinto pena de mim, de nós. Que temos de nos contentar com pequenos sussurros. [Suspiro]
"Lembra que o plano era ficarmos bem?"
Outubro 16, 2006
Um degrau. Apenas um degrau e então, mais um andar. Do alto, talvez um mirante, talvez uma queda bruta. Mas ainda assim, uma outra vista.
Quatro anos olhando a avenida passar. Quatro anos de garoa e de sol, tropeçando nos próprios pés. E escalando pequenas pedras. Sentindo o vento correr de todas as partes, pelos meus cabelos. Sentindo-me pequena na maior das calçadas, entre grandes janelas e infinitos horizontes.
Eu era semente. Era planta sem nome, era fome. Hoje alimento. Cresci no asfalto duro da avenida.
Aprendi a fazer poesia, escutar música com a alma e a gostar de tudo um pouco. Aprendi a caminhar sozinha. Ri demais. E aprendi a chorar, sem vergonha. Conheci a mim mesma. E confesso, tive medo. Descobri cantos escuros, quis apressar o tempo, quase sempre temi. E de repente, cresci.
Apenas um degrau e então, mais uma descoberta.
Outubro 7, 2006
Nenhum, nenhuma
O quarto, paredes quase brancas e teto rachado. O ar parado, esqueceu de respirar. São as cortinas cobertas de poeira e cansaço, ou a sombra que encontrou seu canto. As sombras. Cheirando mofo, o mesmo armário da avó, lutando contra a mesma naftalina a se infiltrar pelas roupas. E quase escondida, a imagem da santa a vigiar.
Silêncio. Esqueci de ligar. Cansei das desculpas, das respostas sem imaginação. Perdoa. Se eu desviei o olhar um dia no metrô, se eu fingi um compromisso, te deixei pra lá. Deixei foi a mim. Aumento um pouco o volume, mas o som não abafa a voz. Porque um dia, tem um dia que é pra sempre.
Lá fora, risadas estrangeiras. E o disco acaba. Grito, grito, grito. Não escuto nada. Sinto medo de não sentir nada. É noite e estou. Dezesseis horas e o disco acaba. Café, guaraná e comprimidos. Há uma fenda no meu teto.
Setembro 24, 2006
"Hoje o samba saiu procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais a esquece não pode reconhecer"
Hoje o samba veio te salvar
Te acordar do sono em que você foi mergulhar
Você só precisava de uma nova canção
Uma nova canção pra te tirar do sufoco
Do choro
Hoje o samba cantou e sussurrou mil segredos
Gritou lindos versos pra você se apaixonar mais cedo
Pra você não secar como as flores
Com poucas cores
Sem o sol da manhã
E amanhã
Deixa o samba continuar a bater
Dentro do seu peito
Escuta direito
Pra não ensurdecer outra vez
Setembro 20, 2006
Life on Mars?
Pára o mundo que eu quero descer. Pára tudo que eu preciso respirar um pouco. Só um pouco, só por agora. Falta ar. Falta fôlego e sobra lágrima. Sobra raiva. Segure minhas mãos quando eu tentar fugir, quando eu quiser me soltar de tudo. As palavras são sempre tão mudas e o silêncio é surdo. Então deixa eu ficar nessa lagoa profunda, nessa escuridão imensa, me esqueça.
"No infinito do céu azul, pode ter vida em Marte..."
Setembro 17, 2006
Le temps qui reste
Eu queria mais tempo...
Tempo pra ouvir os seus segredos
Ou uns segundos apenas pra te desejar bom dia
Tempo pra admirar o céu secar
E tentar adivinhar o tempo que vai fazer
Pra visitar a vó, fofocar com a tia
Discutir com a irmã do tempo que passou
Tempo pra te escrever
E pedir desculpas pela minha falta de tempo
Tempo pra decorar uma música inteira
Porque a minha vida é um refrão
E quando acabar o tempo?
Quem eu culpo então?
Setembro 10, 2006
"Coisa estranha sentir receio". Receio nada, medo mesmo. Só que agora é "medo de velho". Medo de pular do alto, de quebrar os ossos, até de sentir vertigem. Medo de viver. Falta coragem pra seguir qualquer caminho, rasgar mapas, quebrar bússolas.
Porque agora o ponteiro passa mais rápido, passou já. E o temor é perceber que não dá tempo. Tempo pra perder, pra conquistar e pra arriscar também. Devia ter hora extra pra poder errar e depois consertar. Soprar as pétalas das flores e fazer crescer jardins inteiros. Pular o inverno e só deixar o verão nascer.
Coisa estranha ter que crescer. É tudo mais frio, mais chato. Tudo programado, planejado e perfeitamente calculado. Nos detalhes. Aqui dentro vai ficando um silêncio, derramando um sufoco. Fica sempre essa falta, essa poesia inacabada e esse cheiro de rosas. Brisa quente pela avenida, mar de concreto e esse cheiro. Cheiro de infância...
Agosto 28, 2006
Staccato
Eu quero ser gente grande. Quero ser mais realidade e menos promessa. Ser mais resposta do que pergunta. Quero ser certeza, porque são sempre dúvidas, interrogações, portas em aberto. Pássaros que não encontram pouso certo. Porque o que reside em mim é metade força e metade medo. O céu brilha perto, mas atrás do vidro fosco da janela, intocável. E há um mundo inteiro à espera.
A minha angústia jaz na velocidade das coisas. Como se tudo caminhasse lentamente, ou como se eu corresse demais. Os meus passos seguem ligeiros para fugir do ontem, pra chegar antes no amanhã. Ânsia. De sonhos, de repostas, de vida. Quero acordar na verdade das minhas aspirações. Por enquanto, ainda rascunho. Estancada.
Agosto 20, 2006
"Todo coração é uma célula revolucionária"
Ergo a bandeira branca do meu egoísmo sutil. Imersa em nuvens, caminho pelo vento e finjo não enxergar os dejetos urbanos vivos que escorrem pelos rios cinzas da paisagem urbana. Torpor. Não há luta, ideologias, sonhos de um futuro novo. Apenas a palidez dos lenços e dos documentos. Tudo pelo nome. Aumento o volume no meu fone de ouvido e ensurdeço, mergulho nas páginas empoeiradas de um universo distante e sumo. Compro sementes para o meu jardim particular e me calo. Palavras gentis escondem uma cegueira coletiva. Sinto saudade de um tempo outro, em que éramos jovens e não estávamos anestesiados. Quando ainda havia ingenuidade e poesia. Ou terá sido ilusão? Secamos. Será medo? Ausência? Ou talvez o vazio de um mundo sem respostas. Sono.
"Quantas coisas do coração
Não conseguem compreender
Porque a mente não faz questão
Nem tem forças pra obedecer
Quantos sonhos já destruí
E deixei escapar das mãos
Se o futuro é se permitir
Não pretendo viver em vão"
Agosto 12, 2006
O quereres
Assopro o quente do meu café fraco
Que nunca fui forte para o negrume das coisas
Temo o que desconheço no profundo da caneca
Escrevo-te em linhas imaginárias
E apago a cada instante
No abafado do meu quarto, quase adormeço
Sou o oposto das horas que acolhem o dia
Tenho vivido do vislumbre do horizonte
Que nasce ao longe, junto às escassas flores
Sonho
Ensaio meia dúzia de passos
Decoro umas novas palavras
E desenho sorrisos para que me acompanhem
O sozinho me maltrata
Mas ainda desligo a sua voz
Pra quem sabe parar de ouvir o vento
A brisa que enterra o mar
Ah bruta flor do querer...
Agosto 7, 2006
"Que é a memória?
Uma casa para abrigar coisas ausentes".
Junto com os meus livros escolares, os meus brinquedos empoeirados, guardei-te no fundo do armário. Dobrado, com as antigas cartas. Adormecido, como as certezas que julguei ter sobre a vida. Submerso. Mas não pude escondê-lo do meu espelho, dos nossos discos e livros. Não pude apagá-lo de nossas semelhanças.
Hoje achei ter ouvido sua voz ao telefone e senti minha respiração estancar por uns instantes. Como o sopro do mar no ouvido de uma concha, senti teu cheiro de sabonete cobrir o meu rosto. Era engano. Como faço com longos parágrafos de livros complicados, virei a página e fingi não ter ouvido o seu timbre musical que eu julguei ter afundado. Mas aquele eco ficou eternamente ressoando em um canto da minha memória, cantando longamente. Um blues ao fundo.
Por entre as flores que já crescem desabrochadas, procuro-te.
És o fôlego que sempre me falta.