living in theory
Agosto 28, 2006
Staccato
Eu quero ser gente grande. Quero ser mais realidade e menos promessa. Ser mais resposta do que pergunta. Quero ser certeza, porque são sempre dúvidas, interrogações, portas em aberto. Pássaros que não encontram pouso certo. Porque o que reside em mim é metade força e metade medo. O céu brilha perto, mas atrás do vidro fosco da janela, intocável. E há um mundo inteiro à espera.
A minha angústia jaz na velocidade das coisas. Como se tudo caminhasse lentamente, ou como se eu corresse demais. Os meus passos seguem ligeiros para fugir do ontem, pra chegar antes no amanhã. Ânsia. De sonhos, de repostas, de vida. Quero acordar na verdade das minhas aspirações. Por enquanto, ainda rascunho. Estancada.
Agosto 20, 2006
"Todo coração é uma célula revolucionária"
Ergo a bandeira branca do meu egoísmo sutil. Imersa em nuvens, caminho pelo vento e finjo não enxergar os dejetos urbanos vivos que escorrem pelos rios cinzas da paisagem urbana. Torpor. Não há luta, ideologias, sonhos de um futuro novo. Apenas a palidez dos lenços e dos documentos. Tudo pelo nome. Aumento o volume no meu fone de ouvido e ensurdeço, mergulho nas páginas empoeiradas de um universo distante e sumo. Compro sementes para o meu jardim particular e me calo. Palavras gentis escondem uma cegueira coletiva. Sinto saudade de um tempo outro, em que éramos jovens e não estávamos anestesiados. Quando ainda havia ingenuidade e poesia. Ou terá sido ilusão? Secamos. Será medo? Ausência? Ou talvez o vazio de um mundo sem respostas. Sono.
"Quantas coisas do coração
Não conseguem compreender
Porque a mente não faz questão
Nem tem forças pra obedecer
Quantos sonhos já destruí
E deixei escapar das mãos
Se o futuro é se permitir
Não pretendo viver em vão"
Agosto 12, 2006
O quereres
Assopro o quente do meu café fraco
Que nunca fui forte para o negrume das coisas
Temo o que desconheço no profundo da caneca
Escrevo-te em linhas imaginárias
E apago a cada instante
No abafado do meu quarto, quase adormeço
Sou o oposto das horas que acolhem o dia
Tenho vivido do vislumbre do horizonte
Que nasce ao longe, junto às escassas flores
Sonho
Ensaio meia dúzia de passos
Decoro umas novas palavras
E desenho sorrisos para que me acompanhem
O sozinho me maltrata
Mas ainda desligo a sua voz
Pra quem sabe parar de ouvir o vento
A brisa que enterra o mar
Ah bruta flor do querer...
Agosto 7, 2006
"Que é a memória?
Uma casa para abrigar coisas ausentes".
Junto com os meus livros escolares, os meus brinquedos empoeirados, guardei-te no fundo do armário. Dobrado, com as antigas cartas. Adormecido, como as certezas que julguei ter sobre a vida. Submerso. Mas não pude escondê-lo do meu espelho, dos nossos discos e livros. Não pude apagá-lo de nossas semelhanças.
Hoje achei ter ouvido sua voz ao telefone e senti minha respiração estancar por uns instantes. Como o sopro do mar no ouvido de uma concha, senti teu cheiro de sabonete cobrir o meu rosto. Era engano. Como faço com longos parágrafos de livros complicados, virei a página e fingi não ter ouvido o seu timbre musical que eu julguei ter afundado. Mas aquele eco ficou eternamente ressoando em um canto da minha memória, cantando longamente. Um blues ao fundo.
Por entre as flores que já crescem desabrochadas, procuro-te.
És o fôlego que sempre me falta.