living in theory
Outubro 16, 2006
Um degrau. Apenas um degrau e então, mais um andar. Do alto, talvez um mirante, talvez uma queda bruta. Mas ainda assim, uma outra vista.
Quatro anos olhando a avenida passar. Quatro anos de garoa e de sol, tropeçando nos próprios pés. E escalando pequenas pedras. Sentindo o vento correr de todas as partes, pelos meus cabelos. Sentindo-me pequena na maior das calçadas, entre grandes janelas e infinitos horizontes.
Eu era semente. Era planta sem nome, era fome. Hoje alimento. Cresci no asfalto duro da avenida.
Aprendi a fazer poesia, escutar música com a alma e a gostar de tudo um pouco. Aprendi a caminhar sozinha. Ri demais. E aprendi a chorar, sem vergonha. Conheci a mim mesma. E confesso, tive medo. Descobri cantos escuros, quis apressar o tempo, quase sempre temi. E de repente, cresci.
Apenas um degrau e então, mais uma descoberta.
Outubro 7, 2006
Nenhum, nenhuma
O quarto, paredes quase brancas e teto rachado. O ar parado, esqueceu de respirar. São as cortinas cobertas de poeira e cansaço, ou a sombra que encontrou seu canto. As sombras. Cheirando mofo, o mesmo armário da avó, lutando contra a mesma naftalina a se infiltrar pelas roupas. E quase escondida, a imagem da santa a vigiar.
Silêncio. Esqueci de ligar. Cansei das desculpas, das respostas sem imaginação. Perdoa. Se eu desviei o olhar um dia no metrô, se eu fingi um compromisso, te deixei pra lá. Deixei foi a mim. Aumento um pouco o volume, mas o som não abafa a voz. Porque um dia, tem um dia que é pra sempre.
Lá fora, risadas estrangeiras. E o disco acaba. Grito, grito, grito. Não escuto nada. Sinto medo de não sentir nada. É noite e estou. Dezesseis horas e o disco acaba. Café, guaraná e comprimidos. Há uma fenda no meu teto.